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17 De julho de 2014

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Quem vai ser o Boi de Piranha?

Tenho recebido inúmeras mensagens solicitando a minha adesão às petições contra o uso de animais como cobaias em testes científicos. Até agora, confesso, ainda não aceitei participar.

Inicialmente por não querer tomar partido sem ter informações suficientes e consistentes para tal. E, em segundo lugar, por que considero que é fundamental ter bom senso.

Bom senso para pensar em todos os prós e contras, para avaliar as origens e consequências e para não tornar o direito dos animais mais importantes que os direitos humanos. É preciso ter equilíbrio.

Acredito que esse bom senso tenha faltado a todos, especialmente na era das redes sociais. É muito fácil curtir, compartilhar e aderir às causas. O problema é que muitas pessoas estão fazendo isso sem ter o devido conhecimento. Apenas seguem o fluxo, a onda, não avaliam criteriosamente a situação antes de se posicionar. Foi assim durante as manifestações e tem sido em todas as outras causas que estão surgindo na atualidade.

Apenas para exemplificar, relato o caso de uma das minhas conhecidas de rede social que me encaminhou o convite. A mensagem dizia: “Acabei de assinar esta petição – não quer se juntar a mim contra o uso de animais pelo Instituto Royal?”.

Ao receber fiquei curioso por conhecer um pouco mais dessa ativista. Ao acessar sua rede social me deparei com muitas fotos de sua dia-a-dia – festas, churrascos, bares, encontro com amigos; e muitas causas sociais e ambientais.

Além de ativista, pude perceber através do perfil exposto e dos depoimentos de amigos, que se tratava de uma mulher saudável, classe média alta, curso de medicina (ostentado com muito orgulho), bem relacionada, vaidosa (cabelos bem tratados, bem maquiada, com roupas de griffe) e com bom poder aquisitivo. Considerei interessante a pessoa estar envolvida com inúmeras causas.

Mas, também me deparei com algumas incoerências. Nas fotos exibia pratos recheados de carnes de peixe, frango, boi, animais exóticos. Mas eles também não são animais?

No relato dos amigos, muitos questionamentos. Primeiro em relação à vaidade, afinal sempre aparecia muito bem maquiada e apresentável. Será que sabia que a maioria dos cosméticos é testado em animais?  Segundo em relação à saúde – saudável, com caderneta de vacinação em dia. Como médica não sabe que boa parte das vacinas e remédios precisou ser testada antes em animais? Ou ratos e cobras também não são animais? Ou será que ela estaria disposta a trocar de lugar com algum desses animais para testar cosméticos ou vacinas?

Faço meus, os questionamentos dos amigos dela. Hoje eu não estaria disposto a trocar de lugar com os animais, por mais que seja contra a todo e qualquer tipo de agressão e respeite o direito deles. Em minha opinião a discussão precisa ser mais ampla.

O caso dessa conhecida me fez lembrar de uma expressão genuinamente brasileira: “boi de piranha”. Para quem não sabe, essa expressão designa uma situação onde um é sacrificado em troca de um benefício maior de outros.

Tão popular no meio rural, a expressão traduzia, de forma simples e objetiva, a necessidade de atravessar o gado em rio cheio de piranhas. Para não perder a maior parte do gado, um boi velho e/ou doente era atirado ao rio para atrair as piranhas enquanto os outros bois saudáveis passavam, com tranquilidade, para a outra margem do rio.

Ao longo de nossas vidas temos inúmeros rios para atravessar. Pela lei natural de sobrevivência, homens e animais vivem em constante busca do equilíbrio de seus anseios. E nessa busca sempre haverá sacrifícios.

Não podemos nos esquecer que se vivemos hoje até os 80, 90 ou 100 anos, a medicina e os estudos científicos com animais tiveram grandes contribuições nesse processo. Não dá para ter saudades de uma época em que a expectativa de vida beirava os 40 anos. E, também, não podemos negar do papel da pesquisa nesse processo.

Por isso não dá para ser radical, em toda e qualquer ação existe uma causa e uma consequência. Não podemos fechar os olhos para isso. Se formos radicais demais nas causas, sem avaliar de forma sistêmica, provavelmente teremos consequências ainda mais graves, impactos decisivos em nossa saúde, bem estar, qualidade de vida. Ao invés de crucificar, precisamos pensar em soluções para fazer diferente.

No final dessa análise, ainda continuo não sendo a favor, nem contra. Pois em minha opinião o mais importante aqui não é ter um lado a escolher e, sim, uma solução a encontrar.

Você não precisa concordar comigo, pode até continuar sua jornada “ativista radical xiita” e partir para a próxima etapa, resgatar das garras destes cientistas, animais indefesos.

Mas lembre-se que ao chegar lá, deve soltar todos os animais e não somente os mais “bonitinhos” como cachorros, coelhos e gatos. Soltem também as cobras e os ratos e, por favor, levem-nos para sua casa. Não os abandonem nas ruas, por que lá sim, mata-se “um leão por dia”.


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  • Cristina Dos Santos Caldeira

    São tantas questões envolvidas que tomar uma posição radical não colabora em nada para evolução do conhecimento científico e nem para a valorização dos seres humanos, acredito que usar o bom senso é o ponto de equilíbrio da questão!


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