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ESG não é modismo para empresas que têm responsabilidade

ESG (Environmental, Social and Governance) faz parte da minha vida desde muito antes desse termo ter se consolidado no mundo empresarial. Em 1999, usava o termo Sustentabilidade, mas as empresas ignoravam, acreditando que ser apenas um modismo e que não impactaria na governança da organização.

Estando há mais de 25 anos neste mercado, prercebo o crescimento cada vez maior de empresas que dizem estar preocupadas com as questões ambientais, sociais e de governança. E, obviamente, como especialista e atuante da área, não posso deixar de trazer algumas reflexões sobre o que vem acontecendo desde então.

O primeiro questionamento que faço é: Será que o ESG é considerado modismo apenas por empresas sem compromisso ou esse novo conceito, realmente veio realmente para mudar a forma de como os negócios estão sendo feitos, permitindo que um novo futuro seja construído, focado no verdadeiro conceito da SUSTENTABILIDADE?

Free-riders discursivos e greenwashing

No mundo acadêmico, um conceito um pouco antigo, mas que me chama a atenção e gosto bastante, é o de free-riders discursivos, ou, em uma tradução livre, “caronas do discurso”.

Quem usou ele pela primeira vez foi Igor da Fonseca e Marcel Bursztyn, em 2007, no artigo “Mercadores de moralidade: a retórica ambientalista e a prática do desenvolvimento sustentável”. Ser um free-rider discursivo, significa dizer que apoia o desenvolvimento sustentável, para assim desfrutar das vantagens e oportunidades que ser “ambientalmente correto” traz.

No entanto, na prática, essa pessoas se contradizem e não há nada de sustentabilidade em suas ações, que são na verdade individualistas e imediatistas.

O interessante desse conceito é que, mesmo focando mais na esfera ambiental, ele vai além de apenas considerar as empresas, dizendo respeito a cada indivíduo. Por exemplo, são “caroneiros” de discursos:

  • os empresários que utilizam marketing ambiental sem contrapartida perceptível ou que se associam a instituições relacionadas à questão ambiental, mas que na prática não fazem nada;
  • os políticos que utilizam os discursos ambientalistas para fins eleitoreiros;
  •  os cidadãos que se declaram muito preocupados com o meio ambiente, mas que não fazem nada para modificar seus hábitos de consumo e sua relação com ele.

Discurso Greenwashing

Complementando esses caroneiros, outro termo que eu gosto bastante mas que está sendo pouco falado ainda no mundo empresarial é o greenwashing. Greenwashing relaciona-se com as empresas que dizem ser sustentáveis. Para entrar de carona no discurso da sustentabilidade, elas “maquiam” seus resultados, parecendo ser uma coisa que não são.

Tudo é superficial, sem métricas reais, sem impactos positivos verdadeiros.

Talvez não se ouve falar tanto ainda dessa “maquiagem verde” que se dá aos negócios porque é um meio de abafar a realidade, e de criar uma ilusão de que tudo é sim sustentável e segue à risca os princípios ESG.

Além de se “maquiarem de verde”, quando falamos de ESG, sem dúvida muitos estão entrando na onda como caroneiros. E assim meu receio é de que quando qualquer tipo de empresa se apropria de conceitos, como o ESG, ao longo do tempo ele pode se tornar banalizado, fugindo ao propósito a que realmente foi criado.

Aliás, você sabe de onde veio este termo?

 A “origem” do ESG

Larry Fink, CEO da BlackRock e gestor de aproximadamente US$ 9 trilhões em nome de diversos clientes, afirmou em 2018, em sua carta anual aos seus cotistas, investidores e parceiros, que:

“para prosperar, cada companhia terá que entregar não apenas performance financeira, mas também mostrar como faz uma contribuição positiva para a sociedade”.

Já em 2020 ele defendeu que estamos à beira de uma mudança estrutural nas finanças. Além disso, ele deixou clara a sua preocupação com as mudanças climáticas, considerada por ele um fator determinante nas perspectivas das empresas a longo prazo, pois “risco climático é risco de investimento”. Isso significa que as empresas que estão alinhadas aos critérios ESG vão obter resultados financeiros melhores.

Contudo, as empresas sem propósito e que não cumprirem suas obrigações de divulgação de sustentabilidade eficazes ou que não implementarem estruturas para gerenciar estas questões serão desvalorizadas, responsabilizadas e deixadas para trás.

As palavras de Fink impactaram o mundo todo. Por exemplo, a Microsoft anunciou um plano para que suas emissões de carbono fiquem abaixo de zero já em 2030. A Salesforce prometeu conservar ou restaurar 100 milhões de árvores ao longo da próxima década. E a Delta Air Lines anunciou um esforço de US$ 1 bilhão para neutralizar suas emissões de carbono em dez anos.

Após a iniciativa de Larry Fink, muitos investidores têm se manifestado a favor da sustentabilidade, pressionando as empresas a mudarem seus modelos de negócio e adotarem ações de responsabilidade socioambiental corporativa, que devem ser mais importantes que o próprio lucro.

 Só que aqui no Brasil temos um problema

Falar de ESG quando se trata de grandes empresas é muito mais fácil. Quando falamos da Bolsa de Valores, temos o Índice de Sustentabilidade, conhecido como ISE B3.

A atual carteira do índice reúne 46 ações de 39 companhias, representando 15 setores e somando R$ 1,8 trilhão em valor de mercado, o equivalente a 38% do total do valor de mercado das companhias com ações negociadas na B3 até 25 de novembro do ano passado.

Porém, no Brasil, temos mais de 19 milhões de empresas ativas, segundo o Ministério da Economia, e grande parte delas trata-se de pequenas e médias empresas. E diante disso fica um desafio: como fazer com que as organizações deste porte possam adotar práticas de ESG em seu dia a dia e se beneficiarem disso?

Sem isso acontecer, parece que vivemos num clubinho em que os grandes determinam o que vai acontecer. E assim, o que na teoria era para ser inclusão, acaba se tornando mais um tipo de exclusão, exatamente daqueles que não tem como competir com grandes companhias, só que em contrapartida causam um grande impacto ambiental, social e econômico.

Capitalismo inclusivo e ESG?

E então eu entro em uma última reflexão, para não deixar este texto extenso demais. Quando ouço falar de capitalismo inclusivo acende meu sinal de alerta.

A ideia de capitalismo inclusivo veio de Tim Mohin, autor do livro “Changing business from the inside out“, fundador e chairman do Responsible Business Alliance. Para ele este conceito contém dentro de si a noção de diálogo com múltiplas partes interessadas, sendo um movimento massivo, que se manifesta de forma diferente em cada empresa, e envolve muitas organizações e instituições, que estão começando a se unirem por receberem uma enorme pressão dos investidores.

Aí eu te pergunto: inclusivo para quem?

Quando falo que pequenas e médias empresas ainda encontram dificuldade para adotar a agenda ESG e não se vislumbram saídas para resolver esta situação, pelo menos a curto e médio prazo, não podemos falar de inclusão, muito menos de capitalismo inclusivo. Até porque o capitalismo, por si só, não tem nada de inclusivo.

Resumindo muito, suas principais características são a propriedade privada dos meios de produção, busca máxima pelo lucro e acumulação de riquezas, lei da oferta e da demanda, mercado livre com pouca ou nenhuma interferência do Estado e trabalho assalariado. 

Por isso, dentro desse sistema econômico, podemos falar de um capitalismo mais equilibrado e consciente, mas não mais inclusivo.  Por exemplo, “S” do ESG, diz respeito ao social. Quando falamos de inclusão social falamos de incluir as mais diversas pessoas nos diferentes processos, diminuindo a própria desigualdade social.

Fala-se de incluir mais mulheres nos processos decisórios, ter igualdade de salários, de realizar trabalhos voluntários em comunidades carentes, de promover espaços de diálogos, entre outras ações.

Com menor desigualdade social, caminhamos para uma menor desigualdade econômica. Talvez assim poderemos pensar num sistema capitalista mais inclusivo, apesar do paradoxo que existe, na minha opinião, de utilizar estes dos conceitos juntos. Mas enfim, isso é assunto para um próximo artigo, já que este tema rende e há muito a ser falado sobre ele.

 Com o ESG a lógica de ação é outra

As empresas que buscam o lucro a qualquer custo não tem mais vez em nossa sociedade. E não basta só falar, tem que fazer. Não basta se maquiar de verde ou pegar carona em discursos muito bonitos mas na prática ainda continuar poluindo as comunidades em que a fábrica está instalada, em aceitar suborno ou ser conivente com práticas de corrupção, usar trabalho escravo, ou ter um fosso de distância entre os salários de homens e mulheres, ou fazer trabalho voluntário e esquecer de tratar bem o próprio colaborador.

Como afirma Mario Girasole, Senior Executive VP na TIM Brasil, é preciso mudar o mindset e inovar o comportamento das empresas precisa mudar. A ação não é corrigir, mas não fazer. “É pensar antecipadamente para evitar impactos negativos”.

O caminho é longo e difícil, mas não impossível. Eu acredito no ESG e o defenderei sempre, desde que haja uma real internalização de seus princípios e que seja estendido a todos, desde as pequenas empresas até as grandes companhias mundiais.

E sempre é preciso tomar cuidado para não cair nas armadilhas.

A sustentabilidade é um compromisso muito sério que só pode ser colocado em prática por empresas também sérias. Como dizem por aí, “falar até papagaio fala”. Agora, fazer, isso são outros quinhentos.

Deivison Pedroza – Investidor / Conselheiro / CEO / Palestrante

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